Durante mais de cinco décadas lecionando exatas e atuando na elaboração de questões para organizadoras de concursos públicos, deparei-me com uma constatação recorrente e desconcertante: a grande barreira do estudante diante de uma questão lógica ou matemática quase nunca reside na operação aritmética final, mas na incapacidade de decodificar o próprio texto no qual o problema está formulado.
Não foram poucas as vezes em que candidatos com diploma de nível superior interpuseram recursos solicitando a anulação de itens por simples ininteligibilidade de vocábulos básicos da língua portuguesa. Um exemplo emblemático é o uso do termo “respectivamente” — onde o erro decorre unicamente de ignorar que a ordem dos fatores foi previamente fixada pela sintaxe do enunciado.
A matemática e a lógica formal nada mais são do que idiomas sintéticos. Antes de aplicar qualquer teorema, regra de dedução ou algoritmo, o estudante precisa atuar como tradutor: verter a narrativa do problema, posta em língua portuguesa, para a sintaxe rigorosa do raciocínio lógico. Se o leitor tropeça no vernáculo, a tradução nasce corrompida.
É por isso que costumo repetir uma máxima lapidar aos meus alunos:
"Se você não lê, não vai entender o português, quanto mais o 'matematiquês' envolvido!"
A fluência no pensamento analítico exige treino contínuo da musculatura leitora. Desde o final de 2023, fiz da disciplina de leitura um compromisso diário intransigente, acumulando 132 obras lidas ao longo dessa trajetória — 42 títulos em 2024, 56 em 2025 e 34 em 2026. Leio desde os meus 9 anos, mas o volume de leitura aumentou efetivamente depois da minha aposentadoria.
Ler com densidade e variedade não é um passatempo descolado da ciência exata; é o fundamento primordial que constrói a clareza indispensável para interpretar, estruturar e solucionar qualquer problema.
