sábado, 5 de março de 2011

"Não se preocupe, filho, todo mundo faz isso"

Quem costuma pensar dessa forma, só assume postura "moralizadora" quando se torna vítima dos seus próprios atos, praticados por um semelhante igualmente desprovido de ética, moral e respeito.
Zezinho quando tinha sete anos de idade, viajava com seu pai, - num destes domingos ensolarados, descia para a baixada -, quando foi interceptado por excesso de velocidade. Seu pai entregou ao guarda, junto com a carteira de habilitação, uma nota de cinqüenta reais. Retornando para a pista, o pai disse

"Esta tudo bem, filho, todo mundo faz isso".

Aos nove anos, a mãe levou-o pela primeira vez ao teatro - era uma destas peças imperdíveis com uma artista famosa -. O bilheteiro não conseguia arranjar lugares até que a mãe de Zézinho lhe deu, por fora, dez reais, e entreolhou, dizendo

"Esta tudo bem, filho, todo mundo faz isso".

Aos doze anos, numa destas manhãs cinzentas, acompanhou o seu irmão mais velho na entrega de alguns documentos do avo, numa das agências do INSS. A fila dobrava a quadra. Seu irmão dirigiu-se até a seção de informações e junto com as documentações anexou duas notas de vinte reais para a atendente, dizendo que era urgente a entrega dos documentos e que infelizmente não poderia enfrentar aquela fila enorme.

"Esta tudo bem, filho, todo mundo faz isso".

Aos quatorze anos, foi selecionado para jogar de zagueiro no time de futebol da escola, num destes torneios interescolares da cidade. Os treinadores lhe ensinaram como deveria atuar diante dos adversários; agarrando-os, cuspindo no rosto, falando palavras de baixo nível, tudo, sem que os juízes percebessem. "Tudo bem, Zé", disse o treinador. "Todo mundo faz isso".

Quando completou dezesseis anos, passou a estudar a noite, pois era chegado o momento de trabalhar e conseguiu seu primeiro emprego numa loja de materiais para construção. Seu trabalho: aproveitar as tintas que estavam em latas amassadas e datas vencidas, passando o conteúdo para novas latas com validade atualizada. "Tudo bem, meu jovem", disse o gerente. "Todo mundo faz isso".

Aos 18 anos, José foi flagrado, desviando materiais, foi encaminhado para a delegacia e demitido por justa causa. Seus pais foram chamados à delegacia, e José cabisbaixo ouviu. "Como foi que você pôde fazer isso com sua mãe e comigo?", disse o pai. "Aonde foi que você aprendeu isso, pois lá em casa não foi”.

[Gemir Cassan – www.gemircassan.com.br]

"Os pássaros da mesma plumagem voam juntos." [Provérbio Chinês]